25
Jan 09

 

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor realista do Brasil e, provavelmente, o maior escritor da literatura brasileira. Nasceu numa família muito humilde e, para ajudar a família, começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional em 1856. De 1858 em diante escreve para diversos jornais importantes com regularidade.
Dentre suas principais obras estão seus contos (O Alienista e A Cartomante estão entre os mais famosos) e os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente. A crônica brasileira moderna tem, em Machado de Assis, um dos seus principais fundadores. Machado escrevia suas crônicas sob pseudônimos. Só 40 anos após sua morte é que se descobriu o verdadeiro autor das chamadas Crônicas de Lélio.
Na crônica abaixo, Machado de Assis aborda com ironia a questão da abolição da escravatura, que havia ocorrido no dia 13 de maio de 1888.

 

 


Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.

Bons dias!

 Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

 No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

 Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

 No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

 - Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
 - Oh! meu senhô! fico.
 - ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
 - Artura não qué dizê nada, não, senhô...
 - Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
 - Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

 Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

 Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

 O meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

 Boas noites.

publicado por encontromarcado às 12:16

22
Jan 09

 

 
A maravilhosa OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) esteve em dezembro de 2008, na praia do Gonzaga, em Santos, apresentando seu concerto de final de ano. Foi um espetáculo maravilhoso.
Mas, parece que vivemos uma nova era de ditadura, de "cala a boca” onde as pessoas não podem falar o que pensam, emitir opiniões, sem serem perseguidas ou punidas por isso. Claro que tal atitude casa bem com um político morno como o ex presidente da república Fernando Henrique que eu não sei o que está fazendo na direção da OSESP. Todas as vezes que um político é 'colocado' em algum cargo público por qualquer razão que não a correta, corre-se o risco de ver mais uma politicagem e das grandes. Pois foi o que aconteceu recentemente com a mais importante orquestra do Brasil e seu magnífico regente John Neschling. Demitido via e-mail, deixou os fãs ardorosos da orquestra e de seu maestro estarrecidos. Protestos do mundo inteiro estão chegando, pois nenhum cidadão civilizado e politizado pode aceitar tal comportamento de um ex presidente, que vamos falar a verdade, de grande só tem a pose.
Tudo começou com uma entrevista dada pelo maestro ao jornal O Estado de São Paulo, que criticou a administração da OSESP. Mas que diabo, não se pode mais dizer o que se pensa nesse país?
 Neschling está na Grécia, e só vai comentar o acontecido após retornar ao Brasil.
O maestro já havia comunicado que só permaneceria no cargo até 31 de outubro de 2010, mas, por causa da entrevista dada ao Estadão, a sua saída foi adiantada. Claro que o governador de São Paulo, José Serra, está por trás disso.
Mais um ato de politicagem vergonhosa para o nosso país. Quem vai perder com isso? A população com certeza. Fã de orquestra sinfônica que sou, vi durante décadas algumas brilharem e de repente, caírem no esquecimento por falta de verba e vontade política. A OSESP é um orgulho para o Brasil, mas administrada por um político, o que podemos esperar?
Eu me junto aos que não aceitam tamanho descalabro.
publicado por encontromarcado às 17:51

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