30
Nov 08

35 anos para ser feliz


Uma notinha instigante na Zero Hora de 30/09: foi realizado em Madri o Primeiro

Congresso Internacional da Felicidade, e a conclusão dos congressistas foi que

a felicidade só é alcançada depois dos 35 anos. Quem participou desse

encontro? Psicólogos, sociólogos, artistas de circo? Não sei. Mas gostei do

resultado.

A maioria das pessoas, quando são questionadas sobre o assunto, dizem: "Não

existe felicidade, existem apenas momentos felizes". É o que eu pensava

quando habitava a caverna dos 17 anos, para onde não voltaria nem puxada

pelos cabelos. Era angústia, solidão, impasses e incertezas pra tudo quanto era

lado, minimizados por um garden party de vez em quando, um campeonato de

tênis, um feriadão em Garopaba. Os tais momentos felizes.

Adolescente é buzinado dia e noite: tem que estudar para o vestibular, aprender

inglês, usar camisinha, dizer não às drogas, não beber quando dirigir, dar

satisfação aos pais, ler livros que não quer e administrar dezenas de paixões

fulminantes e rompimentos. Não tem grana para ter o próprio canto, costuma

deprimir-se de segunda a sexta e só se diverte aos sábados, em locais onde

sempre tem fila. É o apocalipse. Felicidade, onde está você? Aqui, na casa dos

30 e sua vizinhança.

Está certo que surgem umas ruguinhas, umas mechas brancas e a barriga

salienta-se, mas é um preço justo para o que se ganha em troca. Pense bem:

depois dos 30, você paga do próprio bolso o que come e o que veste. Vira-se

no inglês, no francês, no italiano e no iídiche, e ai de quem rir do seu sotaque.

Não tenta mais o suicídio quando um amor não dá certo, enjoou do cheiro da

maconha, apaixonou-se por literatura, trocou sua mochila por uma Samsonite e

não precisa da autorização de ninguém para assistir ao canal da Playboy. Talvez

não tenha se tornado o bam-bam-bam que sonhou um dia, mas reconhece o

rosto que vê no espelho, sabe de quem se trata e simpatiza com o cara.

Depois que cumprimos as missões impostas no berço — ter uma profissão,

casar e procriar — passamos a ser livres, a escrever nossa própria história, a

valorizar nossas qualidades e ter um certo carinho por nossos defeitos. Somos

os titulares de nossas decisões. A juventude faz bem para a pele, mas nunca

salvou ninguém de ser careta. A maturidade, sim, permite uma certa loucura.

Depois dos 35, conforme descobriram os participantes daquele congresso

curioso, estamos mais aptos a dizer que infelicidade não existe, o que existe

são momentos infelizes. Sai bem mais em conta.


A DOR QUE DÓI MAIS

 

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o

tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na

quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que

mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância.

Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que

já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de

uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos

cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele,

do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.

Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você

podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você

podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas

quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe

como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno.

Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa

a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista

como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem

assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela

aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela

continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando,

se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais

compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,

não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como

vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela

está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais

querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
 


A IMPONTUALIDADE DO AMOR

 

Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois

pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje,

bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por

telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do

esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para

relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde

demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O

amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que

você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora

que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de

jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você

passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal

repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado

porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá,

azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você

busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora,

irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem

tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar

no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco,

pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro

de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O

amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é

imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia

dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia

clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois

de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de

motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é

surpreender.

 

publicado por encontromarcado às 18:03

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